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quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Sobre cheiros e chaves

  O cheiro é simplesmente mais uma percepção que um dos nossos cinco sentidos nos propicia, o olfato, que por sua vez, é comandado pelo nosso cérebro e gerenciado pelo nosso nariz. O fruto desse sistema é, na verdade, uma das mais complicadas experiências que nós podemos ter. Isso porque cheiro não é “simplesmente”, cheiro é a chave. Sim, a chave.
  Temos um amontoado de gavetinhas e cada uma delas guarda um momento, um dia. Nesse dia você pensava em algo, ou em alguém, e sentia, sentia qualquer coisa. Talvez você sentisse um aperto de apreensão ou um êxtase de alegria, talvez sentisse medo ou vontade de sair correndo. Não importa muito o que você sentia, o que importa é o cheiro que estava lá. É provável que você nem o tenha notado, mas, naquele momento, ele se pendurou na penca que fica perto das gavetinhas.
  De vez em quando, uma das chaves, como que por mágica, sai da penca. Você sabe o que acontece quando acaba tropeçando em uma delas. Você abre a gaveta. Reencontra aquele dia, vê o algo ou o alguém passar novamente pela sua cabeça, reencontra o que sentia e quase toca tudo que via. Você sente o aperto, o êxtase, o medo, a vontade. Tudo sobe, da ponta dos pés até chegar na sua nuca, só porque você usou a chave certa. Tudo volta, tudo se repete. Por segundos ou por horas você viaja na sua máquina do tempo particular.
  A chave vai voltar para a penca e, quem sabe um dia, você tropece nela novamente...

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

A incrível indecisão

  Ou o incrível comodismo, depende muito do ponto de vista.

  Eu estava observando uma complexa mania que eu sempre tive: Todas as vezes em que eu começavam as aulas, eu começava a reclamar por férias. Provavelmente você achou isso muito normal, eu sei. A diferença comigo é que sempre que chegava perto das férias eu não queria mais que elas chegassem! Passava a não querer que as aulas acabassem, mas como o calendário letivo nunca seguiu a minha predisposição, as férias chegavam, querendo ou não.
  Então, logo no começo das férias eu passava a reclamar por aulas. O mais complexo da história toda é que, quando chegava na metade das férias, eu já não queria aula de maneira alguma.
  E cá estou eu, sofrendo novamente desse mal. Comecei essas "férias" reclamando que queria estudar, passei metade dela pedindo por aulas e agora, sabendo que vai acabar, não quero que acabe de maneira alguma.
  Como é que pode?

sábado, 4 de agosto de 2007

Missão Não-Impossível

   Os melhores poemas morrem sem saber que um dia existiram. Muitas vezes é fácil encontrá-los, ficam jogados em rimas nas feiras ao ar livre ou descansam em simples cantigas de ninar.
   Vários dos verdadeiros poetas têm mãos calejadas, que nem ao menos saberiam manusear um lápis. Poetas natos, poetas mortos, poetas livres. Tão livres que nem chegam a perceber que são poetas.
   Poetas da vida real criam poemas de consolo aos amigos quando eles choram, criam poemas em músicas enquanto a água despenca do chuveiro, criam poemas em receitas enquanto cozinham. Rimam sem precisar rimar e escrevem com pensamentos.
   Poemas cotidianos e, ainda assim, espetaculares. São o que são e são o que fazem. Jorram sem saber que jorram, existem sem saber que existem e encantam sem nem mesmo despertar a percepção de sua beleza. Desaparecem em segundos, fazendo de conta que nunca existiram.
   Você precisar estar sempre pronto, sempre alerta, pra descobrir um poema semi-morto.
   Essa é a tarefa que fica para cada um: achar um novo poema a cada dia.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Guerras

  Existem muitos motivos e muitas maneiras de declarar uma guerra. Uma das piores é declarar guerra contra você mesmo. Não apenas porque você sabe que isso vai acabar machucando outras pessoas, mas porque a garantia de mundo que nós temos está limitada a nós mesmos. Talvez você não tenha sido pequeno o bastante para experimentar essas sensações, mas elas existem e as perguntas podem ser constantes: O mundo existe ou sou só eu? E, sendo só eu, como é possível olhar no espelho e odiar-se por não ser como tantos outros? Como é possível olhar para as outras pessoas e querer ser mais elas do que você mesmo? Por que, tantas e tantas vezes, o que fazemos é sempre muito pouco ou quase irrelevante perto do que as outras pessoas conseguem fazer? Por que quanto mais você tenta mudar mais você fica encarcerado no que você não quer ser?
  Não é inveja, ou talvez seja. Talvez sejam sempre os problemas de auto-estima e uma vontade infinita de poder quebrar grades que parecem nos perseguir.
  E talvez, só talvez, bem lá no fundo, mas eu sei que é exatamente isso, seja apenas vontade de deitar na grama debaixo de uma árvore, mas não ter grama e não ter árvore. É assim que começam as guerras.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Vôo 3054

  Atrasada, né? Nem vou usar minhas palavras, hoje não. Hoje deixo por conta do Renato Russo:
 
  "'É sangue mesmo, não é mertiolate.' E todos querem ver e comentar a novidade. 'Ó tão emocionante um acidente de verdade.'. Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre: '- Vai passar na televisão.' [...] 'Entendo seu problema mas não posso resolver: É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver." Ordens são ordens. [...]" (Metrópole por Legião Urbana)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Hiperacusia cerebral

   Li sobre a hiperacusia depois de escrever aquele texto sobre poluição sonora. Minha mente continuou caminhando nesse assunto e, como de costume, distorci o significado até criar minhas próprias idéias.
   A hiperacusia é uma hipersensibilidade que caracteriza-se por uma tolerância reduzida a sons, que poderiam passar despercebidos para a maioria. Ruídos menores passam a irritar como se fossem ruídos de grande intensidade.
   Cheguei a uma conclusão muito importante (cof) para a ciência: É isso que ocorre também com o nosso humor, pelo menos com o meu.
   Existem dias que são perfeitos e que acabam sendo jogados na lixeira por algum pequeno detalhe. Existem grandes coisas e grandes momentos que depois têm os bons adjetivos riscados porque faltou algo que fez tudo perder a graça. Momentos de risadas que depois se transformam, repentinamente, em um desespero descomunal por uma pequena coisa fora do lugar.
   O cérebro tem um desconfortável costume de aumentar a proporção dos problemas. Coisas insignificantes crescem e engolem o nosso bom humor. Quando essas coisas são resolvidas, toda a impressão de que o mundo está errado dissolve como se jogássemos um balde d'água na sujeira supérflua.
   O interessante é que isso depende de coisas sempre muito iguais. Certas pessoas ou certos costumes, palavras, frases, manias. O cérebro faz uma lista do que nos é importante e declara guerra quando algo disso está um pouquinho fora do normal.
   É essa "hiperacusia cerebral" que impede as pessoas de aproveitarem melhor suas vidas. Estão sempre reclamando dos problemas pequenos e esquecem das grandes felicidades. Não as culpo, pelo menos não agora depois de toda essa teoria, mas espero que, sabendo do problema, cada um possa encontrar seu remédio e sua prevenção.
   A felicidade também vive aqui do lado só que a gente não vê.

domingo, 1 de julho de 2007

Psicografando

   O mais engraçado quando eu escrevo é que muitas vezes depois de pronto, quando leio o que escrevi, parece que não fui eu que fiz aquilo. Principalmente textos que fiz já há algum tempo. Olho para eles e digo "Porra, não acredito que fui eu quem disse isso!". Não dá pra saber de onde surgiram, nem se estiveram durante todo o tempo ali mesmo dentro da minha cabeça. Até penso que alguns professores meus devem ter achado que eu copiei uns desavisados por aí. Ainda bem que existem as provas pra provar que não, hein.
   Vou começar realmente a analisar se não psicografo algumas coisas...
   Vinde a mim, Agatha Christie!

   Alguém mais tem essa impressão sobre seus próprios textos?

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Ninguém que explique e nnguém que não entenda

   Será que não é a nossa liberdade que nos enlouquece? Essa liberdade que nos apresenta um possível direito de escolhas, que nos condena a pensar e a refletir.
   Não é o nosso livre arbítrio o que nos faz cair em lágrimas ao enfrentar escolhas difíceis? E, então, se nos suprimissem o direito à liberdade mas conservassem a felicidade, não estaríamos, de alguma forma, mais completos? Se pudéssemos escolher entre os dois conceitos, quantos de nós prefeririam a liberdade? Estar embebido em felicidade não é mais apetecedor do que apenas estar livre, conservando todos os momentos de tristeza?
   Não apenas isso. Até onde a liberdade pode ser capitalista? Será que ela é mesmo compatível com uma sociedade que se regozija com superioridade econômica?
   Nossa liberdade vive sob o regime de controle monetário. Somos todos livres, porém, menos livres ao passo que formos mais pobres. Não é difícil enxergar: A Constituição nos garante a liberdade de locomoção mas não dá condições para tal, temos a liberdade para adquirir os bens que quisermos mas não temos dinheiro para fazê-lo. É tão fácil pregar uma liberdade que não pode ser exercida!
   É dedutível que dinheiro compra liberdade. Não apenas no sistema carcerário. É a liberdade financeira e ela está, sim, ligada ao estado de ânimo e ao direito de escolher porque, ser livre financeiramente, garante uma maior capacidade de agirmos - e de nos defendermos. Será que, ao menos neste ponto, por comprar liberdade, o dinheiro não compraria também felicidade se elas duas realmente caminhassem tão unidas?
   Há ainda a liberdade de escolhas. Mas quantas vezes nos privamos de nossos direitos como seres livres por estarmos amarrados a conceitos como aceitação social? Talvez, por este lado, nossa liberdade não se limite ao que fazemos. Talvez não seja exatamente a liberdade de ação o que nos deslumbra na promessa.
   A liberdade de idéias! Ah, essa sim, parece-nos a mais plena. É plena e, infelizmente, talvez utópica. Somos condicionados. Condicionamento não condiz com liberdade. E somos. Somos todos os dias, pela televisão, pelas pessoas, pelos livros, pelo que quer que seja. Damos a liberdade de nos condicionarem e nos sentirmos libertos ao fazer escolhas limitadas por eles.
   A liberdade é, acredito, um estado de espírito. Talvez inerente ou talvez nunca realmente alcançado. Talvez nossa liberdade escravista seja a maior e mais bem planejada mentira dos séculos, mas garante-nos ao menos o conforto de acreditarmos que somos livres. É essa liberdade controlada que nos enche de prazer ao fugirmos um pouco de nossas próprias expectativas.
   Será que, se verdadeiramente livres, seria possível sermos felizes?

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Vivo pouco demais?

   Existem sensações que vão e voltam como bumerangues. Uma dessas sensações é a de não estar vivendo a vida da maneira correta.
   Podem argumentar dizendo que não há uma maneira correta ou que cada pessoa deve encontrar a maneira que satisfaz suas próprias vontades. No entanto, volta-e-meia penso se não deveríamos nos arriscar mais, fazer mais coisas, sair da mesmice constante na qual vivemos, porque sabemos, claro, que cedo ou tarde essa mesmice vai sair de nossas vidas levando a própria vida junto... E vai ser tarde demais para qualquer arrependimento.
   Horas em que um novo sono antecede a própria lembrança de ter acabado de acordar, dias quentes em que você lembra do convite que recusou, tardes vazias em que os filmes são suas únicas companhias. Esses são momentos comuns na vida, horas tão comuns que se tornam formas dispendiosas de sobrevivência.
   Será que sou só eu que olho ao meu redor e penso em tantas coisas que poderia fazer? Não são apenas "coisas", algumas são coisas que, de certa maneira, não me chamavam a atenção ou nunca me agradaram. Mas são coisas que dariam histórias, lembranças, uma grande variedade de estoque para minha mente.
   Eu fico pensando nos anos que vão vir: Quando eu tiver oitenta anos-e-nada-para-fazer, será que eu vou me arrepender de tudo que eu não fiz quando poderia fazer? Será que não vou pensar em todo o tempo que eu gastei com nada ou com nada interessante? Será que não estamos todos gastando tempo demais tentando economizar alguma coisa sem nem saber ao certo o quê?
   Não sei se é falta de coragem ou medo de errar. Talvez medo de ser repreendido, medo de ouvir "não", ou falta de um pontapé inicial. Porém, agora, muitas vezes antes de negar convites, de deixar de fazer coisas, eu penso nisso tudo e mudo de idéia.
   Tenho vontade de sair correndo, viajar, fazer uma revolução, entrar pra história, mudar o rumo de tudo ou simplesmente mudar meu próprio rumo. Não sei o que falta, mas falta. E então não faço nada disso. Talvez o que nos impeça seja esse comodismo que nos consome, essa idéia comum de que é melhor estar como estar do que correr o risco de estar pior.
   Ainda que não mude nada, é sempre bom tentar de vez em quando. Sabe como é, seria "melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez"...

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Foi-se o tempo das vacas magras

   Todo mundo sabe que as mulheres nunca estão contentes com elas mesmas e que os padrões estereotipados da mídia acabam refletindo nos costumes de todo um exército de anônimas. Mas e se, repentinamente, as excluídas resolvem se revoltar e virar o jogo?
   O primeiro levantamento a ser indicado é que a beleza é mais uma área que defende o direito de igualdade para todos e que não cumpre sua promessa.
   Já faz algum tempo que tem havido uma superexposição de transtornos como a bulimia e a anorexia, que seriam consequências do padrão modelo-seca-de-passarela. O problema é que a mídia fala mas não explica. Ou explica demais e confunde a cabeça das pessoas.
   Então, voltando ao primeiro parágrafo, não sei se estamos assistindo o início de mais uma reviravolta nos padrões estéticos, dessas que ocorrem ao longo dos anos, mas, repentinamente, todas as meninas com IMC abaixo do recomendado começaram a ser bombardeadas pelas idéias sobre "Ana" e "Mia". As modelos continuam nas passarelas mas as críticas crescem dentro e fora delas.
   É óbvio que esses transtornos devem ser acompanhados e criticados, mas parece que todos esqueceram das magras magras. Esqueceram de todas as mulheres que tem predisposição genética, que comem o que querem e o que não querem, que estavam (ou não) satisfeitas com elas mesmas e que, com toda essa história, assistem sua auto-estima entrar em colapso.
   Vejo muitas meninas que nunca gostaram de ser magras desabando de vez por causa dessa nova moda. Deve ser uma ótima tática para os donos da academia que vêem o número de seus clientes aumentar, assim como também cresce o número de mães preocupadas com suas filhas. Talvez seja ótimo na visão de muitos médicos mas, na minha opinião, muito (o que não quer dizer toda) dessa preocupação é injustificada e acaba complicando a vida de várias pessoas.
   Não acredito mais naquela frase "Metade do mundo passa fome, a outra metade quer emagrecer". Tem muita mulher magra querendo engordar e a indústria de beleza também é bastante injusta com essa classe. Existem pessoas que não conseguem ganhar peso, que tentam dietas pra esses fins e que passam por sacrifícios equivalentes aos de outras pessoas que se consideram gordas. Acredito que esse seja mesmo um grupo menor, e que, por isso, não tem o direito de defesa correto.
   É necessário que as pessoas entendam que não apenas quem está acima do peso possui problemas de aceitação com seu próprio corpo. A defesa não pode vir apenas para um grupo. A minoria não pode ficar mais uma vez à margem de tudo. Antes de sair por aí estabelecendo novos estereótipos deveríamos olhar ao redor e ver quantas pessoas mais uma vez serão excluídas e se sentirão mal por causa deles. Será que precisamos mesmo ser movidos com base em padrões?
   Se todos são bonitos como são, isso inclui todas as nossas queridas magrinhas, secas, varetas, falsas anoréxicas, esqueletos, bambús, ou como você quiser chamá-las... Mas que são, acima de tudo, seres humanos como você. :)

♪ Tpm² - Menina encanada

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Falada Língua

   A última crise de falta do que fazer me levou a folhear uma gramática. As primeiras páginas trouxeram à tona a alfabetização e me fizeram pensar sobre como a gente interioriza tudo, passa a fazer certo sem precisar questionar se está ou não dentro das normas. Só que o que me deixou chocada foi tudo aquilo que aprendi sem aprender.
   Vou ser mais específica. As páginas da gramática descrevem o que chamam de classificação das vogais e consoantes. Uma dessas classificações é determinada pela zona de articulação. Pra deixar a coisa mais confusa vou citar um trecho da Gramática Ilustrada de Hildebrando André:
   "Som produzido quando a língua se conserva quase em repouso, baixa, a boca aberta e o véu palatino (palato mole) se levanta, impedindo a passagem da corrente de ar para as fossas nasais;"
   MASCOMOASSIM? Sim, amigo, essa enrola toda é o que você conhece apenas por letra A.
   Lendo isso me surgiu uma grande dúvida: Como é que eu aprendi a bendita letra A?! E todas as outras letras também! Juro que desde que li essas classificações me pego, vez ou outra, pensando se minha língua está encostando no desgramado do véu palatino ou coisa assim.
   Quero dizer, todos aqueles bebês na fase do gugu-dádá estariam, na verdade, recitando mantras enquanto filosofam sobre a posição da sua língua em relação aos alvéolos dos dentes, da abertura da boca ou algo do tipo? Será que é por isso que a gente esquece tudo que pensava nessa idade? Pra não ficar louco (e mudo)?
   Provavelmente não. Então imagine ensinar as crianças usando essa metodologia: "Toque o lábio inferior e os dentes superiores, criando um obstáculo parcial à corrente de ar. Agora sopre." O resultado deveria ser como a letra f ou v. Será que daria certo?
   Acho que é por isso que aprender violão, outras línguas e tanto mais fica difícil. É que eu sei que se soubesse que falar era tão complicado... provavelmente não teria falado nunca.