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quarta-feira, 4 de julho de 2007

Mecanizar-se

   Acordou às sete e meia da manhã. Sempre achou que este era o horário mais claro de qualquer mente. Uma noite bem dormida, era isso que qualquer pessoa precisava para reiniciar o cérebro. Depois das convulsões de idéias que ocorrem na madrugada, a manhã é o horário em que todos os arquivos temporários são apagados e já é possível pensar sem que seus próprios pensamentos lhe passem a perna.
   Foi por isso que acordou às sete e meia da manhã. Nenhum outro motivo realmente importante pode ser citado. Tinha olhos de zumbi, o corpo ainda estava quente pelas cobertas. Levantou-se o menos pesarosamente que pôde – deixar que os sonhos morram é realmente difícil – e caminhou até o guarda-roupa.
   Esse não é um conto de fadas em que os mocinhos entram em móveis e acabam encontrando um mundo encantado. Não, esta é uma história real. O máximo que poderíamos encontrar seria um mundo doentio, mas, talvez por isso, ela não tentou entrar na mobília. Abriu as portas e pegou uma série de livros. Deitou-os sobre a cama. A pilha era grande, como corpos jogados depois de uma guerra.
   E, então, engoliu cada um deles. Cada pedaço de página. As capas vermelhas começavam com um ardiloso gosto de maçã e terminavam com morangos. Grandes morangos gostosos. As verdes cheiravam à hortelã e as rosas lembravam mangas maduras. Capas pretas, de cacau. Capas brancas, de banana. Tudo cautelosamente triturado e enviado para o próximo setor. Algumas vezes encontrou coloridos diferentes com gosto de algodão doce. Mas as páginas, ela garantiria, sempre eram brancas e sempre tinham um fervoroso gosto de idéias.
   Comeu todas as frutas. Comeu todas as idéias. Comeu cada uma das capas, cada uma das páginas. Uma por uma, sem deixar migalhas. Quando terminou o banquete, estava tão farta que não teve mais forças. Dormiu. O sono das idéias sendo arquivadas pelo cérebro.
   Mecanizar-se, mas jamais automatizar-se. Ela era uma máquina pensante, diziam-lhe nos sonhos, e as idéias eram seus combustíveis.

sábado, 23 de junho de 2007

Poluição sonora


Troca-se vida numa cidade pseudo-grande
por vida numa casinha no meio do mato.

   Por que essa decisão? Porque hoje é, acreditem, um dia muito poluído. Claro que existem muitos motivos para isso. É sábado, é São João, estamos em plena cidade e, o principal, amanheci hoje muito sensível a sons. Concluí que essa poluição pode acabar me custando a sanidade.
   Acordei de um sonho em que Zezé di Camargo e Luciano estavam fazendo um show numa praça perto daqui. É, e isso nem é o mais grave da história toda. Acordei e descobri que um som altíssimo tocava músicas da dupla. Tentei tampar os ouvidos e voltar a dormir. Adiantou apenas um pouco. Acabei acordando novamente quando um carro de som passou decidido a aumentar meu calvário. Levantei. O barulho externo - como um castigo - é mais alto no meu quarto, então, o melhor era sair logo dali. No quarto ao lado, meu irmão ouvia música. Verdade seja dita, posso amar uma música mas, se a escuto quando não estou afim, ela me dá raiva. Na cozinha, minha mãe preparava o almoço enquanto ouvia o rádio, logo, as vozes se uniam ao choques dos pratos e panelas.
   Fui até outro quarto, irritadíssima, e peguei dois pedaços de algodão para meter nos ouvidos e tentar atenuar a situação. Voltei para o quarto. Músicas de letras repetitivas, sugestivas, obscenas, agora ocupavam o lugar que antes fora da dupla sertaneja. Só um pouco - foi o resultado do algodão -, mas já era algo. Consegui me distrair e quando me dei conta, o bar tinha se calado. Ótimo, paz! Nem tanto.
   Almoço. Televisão às alturas. Quarto do meu irmão, com a porta aberta, a repetir sempre as mesmas músicas (abuso infeliz!). Volto ao meu quarto para tentar um novo pouco de paz. Cachorros no vizinho latem sem parar, alto Alto ALTO. Um som qualquer toca Raul, também muito alto, e, já disse: gosto mas, quando não quero, torna-se odioso. O carro de som volta para completar a festa. Anúncio do quê? Estou irritada demais para prestar atenção.
   Os cachorros não param. Alguém coloca uma música infeliz em som de carro. Tenho horror a som de carro. Odeio aquele tum-tum-tum que, a depender da música, os alto-falantes (não apenas) dos automóveis fazem quando o volume está muito alto.
   Volto a tentar os algodões. Os cachorros latem mais ferozmente do que é possível cobrir. Tento escrever, mas meu cérebro se atém a xingar todo o caos sonoro. Lembro-me de que é por isso que gosto das madrugadas, daquele silêncio e daquela paz...
   Alarme de carro. Tum. Barulho de motor. Tum-tum. Barulho de andar. Tum-tum-tum. Barulho dos fogos de São João. Tum. Barulho de teclado. Tum-tum. Barulho de pessoas correndo. Tum-tum-tum. Barulho do latir. Tum. Barulho do dono a gritar com os cachorros. Tum-tum. Barulho do cooler do computador. Tum-Tum-tum. Carros, ônibus, pessoas, animais, ruídos. Tum-tum-tum como um martelo. Ruídos. Tum-tum-tum na minha cabeça. Ruídos. Não importa aonde eu vá: Tum. Tum-tum. Tum-TUm-TUM!
   Eu grito (como se pudesse silenciar a todos com meu próprio barulho). Outro carro passa com música alta. Tum-tum-tum. Choro. Vou enloquecer!
   Tum-tum-tum. Tum-tum-tum. Acabo descobrindo dentro do carro, na garagem, o melhor silêncio, pelo abafamento das janelas e portas devidamente fechadas. É o paraíso. Dormi. Infelizmente, confesso, acordei no mesmo mundo sonoramente caótico... Tum  tum  tum:
   - Meu reino por um protetor de ouvidos!